No domingo, os gregos disseram “não” à proposta do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Central Europeu (BCE) para a renegociação da impagável dívida do país. Em resumo, para que a Grécia pudesse receber mais dinheiro da União Europeia (UE) e, assim, evitar o colapso do seu sistema bancário, os credores exigiram algumas garantias de que o país criaria condições para algum dia liquidar essa dívida.

Na prática, essas exigências estão conectadas aos impopulares arrochos nas contas do governo, o que, por sua vez, significam menos investimentos em serviços públicos, como saúde, educação e segurança. O ponto crucial dessa história – e o que provavelmente levou à escolha do não acordo – é que o país já vem há anos vivendo uma política de austeridade fiscal, sem que isso tenha ajudado o país a sair do lamaceiro econômico em que se encontra atolado. Muitos dizem que, na verdade, o aperto nos gastos do governo só ajudou a piorar a situação, fazendo a economia encolher em torno de 25%.

Então é sim compreensível que os gregos estejam infelizes com a UE. Mas teria sido diferente caso o país não tivesse entrado na Zona do Euro (ZE)?

Será que a dracma voltará a ser a moeda da Grécia?

Será que a dracma voltará a ser a moeda da Grécia?

Essa é uma pergunta complicada! Por um lado, ter a moeda comum europeia traz uma série de vantagens aos seus associados. A principal delas: acesso a crédito barato. A Grécia se aproveitou muito disso. Mas por outro lado, em tempos de dificuldade, o país perde a ferramenta da flutuação cambial. Assim, não pode, por exemplo, desvalorizar sua moeda para tornar seus produtos e serviços mais baratos e atrativos ao mercado internacional. E isso, para um país do tamanho da Grécia, é como jogar água em cima de quem já está se afogando. Por essa razão, muitos gregos já apoiam o retorno da dracma, a moeda grega usada antes da adoção do euro, e acham melhor começar tudo do “zero”.

Bom, mas tem ainda uma outra historinha que gostaria de contar. Anos atrás, em Leyton, bairro de histórico violento na Zona Leste de Londres, estava eu conversando com Nikolas, um amigo Grego com quem dividia a casa onde morava. Contava a ele sobre o mar de lama que é a política brasileira. Ele, ironicamente, rebatia: “você tem certeza de que não está falando de outro país?” Rsrs

Claro que esse outro país era a Grécia, onde a corrupção e os gastos governamentais fora de controle nunca deixaram a desejar a nenhum governo brasileiro (guardada suas devidas proporções). A diferença é que do lado de lá, a economia é movida na base da azeitona, enquanto no Brasil, a conta da corrupção e irresponsabilidade fiscal pode ser paga por diversas fontes de renda (e mesmo assim a coisa engripa, não é? A corrupção é gulosa!).

É muitíssimo importante ressaltar que a Grécia, em condições normais e honestas, nunca faria parte da Zona do Euro (aliás, esse nome nunca esteve tão sugestivo). Para ter seu cantinho assegurado no hall dos países ricos, as contas públicas foram todas maquiadas. O déficit público (quando o governo gasta mais do que arrecada) que 15 anos atrás passava dos 30%, foi apresentado ao BCE como sendo de aproximadamente 15%. E o pedido dos credores era para que ele caísse para 7%.

Assim, não é surpresa para ninguém que essa crise de confiança fosse explodir em algum momento. É fácil acusar os bancos, monstros controladores do dinheiro, quando a coisa fica feia. Mas é preciso fazer a lição de casa para não ficar à mercê dessa “agiotagem financeira”, como classificam alguns. Sim, os bancos são cruéis, mas a política irresponsável, praticada de forma a defender uma agenda que vai contra aos interesses públicos, é ainda pior.

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