Não sou famoso, nem rico, tampouco ocupo cargo importante em uma grande corporação multinacional. Tenho sim algumas conquistas profissionais que me orgulham muito. Mas o fato presente é que estou na batalha para fazer da minha iniciativa – a AndradeCamargo.com (site no ar em breve), da qual o ZOROPEANDO é a parte mais importante – uma empreitada de sucesso. E classifico como sucesso, pelo menos no momento, a capacidade de fazer dinheiro suficiente para atingir o break even da minha operação – ou em português claro, ter grana para pagar as contas. Em resumo, levo uma vida, pelo menos nesse sentido aqui explanado, não muito diferente da sua.

José Padilha é milionário. O cara dirigiu nada menos do que Tropa de Elite 1 e 2, filmes que certamente estão em qualquer lista dos melhores brasileiros de todos os tempos. Também fez Robocop, uma obra hollywoodiana para filme de 170 milhões de dólares nenhum botar defeito. Na verdade ele fez muito mais do que isso e merece muito a posição que conquistou em termos financeiros, sociais e profissionais. Sou fã dele.

Por que estou colocando Padilha e eu, seres de mundos diferentes, no mesmo balaio?

É que recentemente, tanto ele como eu deixamos o Brasil. Ele foi para Los Angeles, nos Estados Unidos, a meca do cinema mundial. Que diretor de filmes não gostaria de viver lá? Eu vim para Praga, capital da República Tcheca, terra da… da… ah… da cerveja boa e barata. Que beberrão não gostaria de estar aqui? rs. Bom, infelizmente não bebo tanto assim, mas Praga tem outros atrativos não etílicos de arrebentar, como o de ser facilmente uma das cidades mais bonitas da Europa. Sem contar que é terra da minha mulher e do meu filho e um dos lugares mais seguros do planeta. Quem não gostaria de estar aqui, deveria repensar suas prioridades.

Castelo de Praga, uma das vistas mais bonitas de toda a Europa (e fica bem pertinho de casa) | Foto: Henrique Andrade Camargo

Castelo de Praga, uma das vistas mais bonitas de toda a Europa (e fica bem pertinho de casa) | Foto: Henrique Andrade Camargo

Bom, falei de segurança, não é? Um dos casos que motivaram Padilha a deixar o Rio de Janeiro foi uma tentativa de sequestro. Homens armados planejavam pegá-lo em sua produtora, no Jardim Botânico, lindo bairro na zona sul do Rio (o que não é lindo na zona sul do Rio? Ah… a violência). Os bandidos apenas não contavam com o sistema de vídeo instalado na frente do prédio. Padilha viu tudo o que se passava do lado de fora e conseguiu evitar o pior (acompanhe no vídeo abaixo a história que o diretor de Tropa de Elite contou para o site da revista Trip).

Quanto a mim, nunca ninguém tentou me sequestrar. Mas isso não quer dizer que não tenha sido vítima da violência brasileira. Fui sim! Há cerca de 20 anos, em uma noite em que passava dirigindo em frente à Igreja da Consolação, no Centro de São Paulo, um trombadinha tomou 5 reais meus, dinheiro que estava guardando para comprar uma batatinha frita no McDonald’s.

Alguns anos depois, ao fim de um longo dia de trabalho no então belo prédio da Editora Abril, dois garotos armados roubaram os passageiros do ônibus em que eu estava. Momentos de tensão. Justo naquele dia, havia esquecido minha carteira na mesa do trabalho. Não tinha nada para entregar aos garotos. Como eles reagiriam? Fiquei com muito medo, mas graças a Deus, estou aqui para contar essa história.

Sem dúvida, foram momentos desagradáveis, mas não estão no mesmo nível da tentativa de sequestro do Padilha, não é? Mas minha mulher, que morou por apenas seis anos em São Paulo, teve dois casos piores do que o meu para contar.

Descrente de que era perigoso andar nas ruas da cidade com bolsas e mochilas cheias de coisas de valor, como laptop, dinheiro, cartão de crédito etc., ela simplesmente ignorava meus conselhos para que não fizesse aquilo. E advinha só o que aconteceu? Foi assaltada duas vezes quase em frente ao condomínio em que morávamos, na Vila Andrade, o Morumbi das classes ascendentes, curiosamente também na zona sul, mas a paulistana. Sabe aquela foto em que uma favela está bem ao lado de um prédio luxuoso, cujos apartamentos têm piscinas nas sacadas? Pois bem, não é ali, mas é bem perto.

Desigualdade social em São Paulo | Foto: Tuca Vieira/ Wikimedia Commons

Desigualdade social em São Paulo | Foto: Tuca Vieira/ Wikimedia Commons

Voltando, a primeira vez em que foi assaltada, teve arma apontada para a cabeça e tudo. Na segunda, foi um grupo de três moleques, com a qual arriscou uma briga. Perdeu, claro!

Episódios assim desencantam qualquer sujeito. As notícias de arrastões em condomínios e latrocínios nas vizinhanças também não ajudavam muito a melhorar a nossa sensação de (in)segurança. E para piorar tudo, havia um desrespeito brutal dos moradores do meu condomínio quanto à lei do silêncio. Mas isso é assunto para outra conversa (ou não?).

O bicho pegou mesmo com a gravidez da minha mulher. Ela não confiava no Brasil. E diante da situação, eu tinha poucos argumentos para convencê-la do contrário. O mais enfático deles era com relação à economia e oportunidades de fazer fortuna. Mas esse lado do país não anda lá muito promissor ultimamente, né?

O parto da mudança

Foi uma verdadeira gestação a minha saída do Brasil. Enquanto minha mulher guardava o pequeno dentro do útero, ia também tentando me convencer a nos mudarmos para a República Tcheca. Na verdade, ela já tinha ido para lá (cá). Fez todo o pré-natal em Praga, com o seu médico de confiança. Tudo bancado pelo sistema de saúde tcheco (ainda bem).

Para encurtar a história, comecei a mudança quando meu filho nasceu. Primeiramente fui a Praga para participar do parto. Já tinha ido para aquela (essa) cidade algumas vezes, devido a obrigações familiares, mas nunca havia pensado em morar ali.

Até que um dia, ao passear pela vizinhança de Letná, um dos bairros residenciais mais bacanas de lá (cá) – pelo menos na minha opinião -, deparei-me com um grupo de aproximadamente 10 crianças de uns quatro ou cinco anos de idade. Elas, todas vestidas com um coletinho de segurança, acompanhavam em fila indiana a professora e sua ajudante pelas calçadas locais. Estavam indo brincar no parquinho de Stromovka, um dos parques locais.

Isso bateu forte em mim. Doeu saber que em São Paulo – e talvez em qualquer outra cidade do Brasil – meu filho nunca teria essa tranquilidade. Melhor dizendo, eu não teria essa tranquilidade. Em São Paulo, as crianças saem de ambientes “seguros” e controlados para irem a outros ambientes de características semelhantes. Em São Paulo, as crianças bem nascidas aprendem a ter medo das que não tiveram o mesmo privilégio (leitura obrigatória: Mãe, onde dormem as pessoas marrons?, de Eliane Brum). É como se fossem seres de espécies diferentes. E quando crescem, materializam e ajudam a perpetuar a crueldade daquele medo que aprenderam a ter quando crianças.

Em resumo, Padilha e eu saímos do Brasil, porque os brasileiros “perderam a sensibilidade para o absurdo”, como o próprio diretor diz na entrevista para a Trip. A gente se acostumou a viver em um ambiente absurdamente hostil. A violência, a injustiça social, o conformismocom o menos pior na política ou o simples desrespeito para com os vizinhos são coisas normais. Sempre foram. E do jeito que anda a coisa, sempre serão. 🙁

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  1. Mr. Camargo

    Você está correto em avaliar os sintomas que levaram a mudança. Mas faltou uma análise das causas da violência. A minha singela análise leva a crer que a falência da educação de qualidade a todos levou-nos como sociedade a partir para a ignorância. Triste para um país pacato terminar assim….mas a culpa é toda nossa que não lutou para a educação universal de qualidade para todos brasileiros.

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