Certa vez um amigo – ou ex-amigo – disse que eu deveria fumar maconha. Antes mesmo que eu perguntasse o motivo daquela estranha afirmação, ele emendou (não exatamente com essas palavras, já que aqui visamos sempre a dramatização da cena): “se não for pelos efeitos psicoativos do cigarrinho do capeta, ao menos para justificar o seu jeito de ser”.

Cannafest, uma das feiras mais populares de Praga

Cannafest, uma das feiras mais populares de Praga | Foto: Henrique Andrade Camargo

Anos se passaram e eu ainda reflito se ele tentou me ofender ou elogiar com tais palavras. Tendo em vista que ele próprio fumava uma vez ao dia, começando bem cedinho e terminando bem à noite, talvez tenha tentado passar uma mensagem positiva sobre a minha pessoa. Ou talvez ele estivesse doidão mesmo, falando qualquer merda que passasse por sua cabeça.

Seja o que for, o ponto aqui é que eu não sou maconheiro – nem bomconheiro, como diz um outro amigo que usa a planta para fins recreativos – mas os tchecos são. Para você ter uma ideia de como isso é verdade, Praga, a capital da República Tcheca, já está ganhando a reputação de ser a nova Amsterdã. O título, por sua vez, é injusto. E a razão é simples: fuma-se em Praga muito mais maconha do que em Amsterdã.

Homem fantasiado de folha de maconha anima visitantes na entrada do Cannafest | Foto: Henrique Andrade Camargo

Homem fantasiado de folha de maconha anima visitantes na entrada do Cannafest | Foto: Henrique Andrade Camargo

Oficialmente, a droga ainda é ilegal no país. Na vida real, as pessoas fumam em quase qualquer lugar e hora. Mesmo alguns escritórios permitem que seus funcionários fumem unzinho durante o expediente.

E é nesse clima de legalize que foi realizado no centro de exposições de Praga a Cannafest, o festival da cannabis.

Eu fui até lá para ver qual era desse evento. Para começar, o que mais me impressionou foi o número de visitantes. Esse centro de exposições recebe feiras o ano inteiro. Sempre passo por ele, porque fica bem perto de casa e do meu escritório de terça-feira. Nunca antes na minha vida vi tanta gente junta ali na frente daquele prédio. Ano passado, foram 27 mil visitantes. Ainda não tenho a estimativa deste ano, mas certamente a Cannafest está conquistando o coração da moçada.

Só que para minha surpresa, apenas um ou outro queimava o fumo do lado de fora da exposição. Dentro das instalações, não vi ninguém fumando. A coisa era séria. Business as usual! Havia empresas vendendo sementes, fertilizantes, iluminação, sistemas de irrigação, comidas, roupas, medicamentos, livros etc. A indústria está ficando mais forte do que nunca com o abrandamento de leis e as novas descobertas da planta. A ideologia maconheira, assim como as outras que se renderam ao poder da indústria, vai ficando de lado.

 

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